Da capitá federá
Ou de onde quer que eu esteja

25.3.04


11-M, Madrid no te olvidará

Realmente, Madrid não esquecerá o que aconteceu há duas semanas.

Hoje tirei a manhã para me despedir de Madrid. Afinal,amanhã é o último dia aqui, sempre é mais corrido. E aproveitei para acertar uma dívida que tinha para com vocês, amigos queridos brasileiros, de contar o que aconteceu por aqui.

Fui tirar fotos de Atocha, a estação de trens que a Al Qaeda queria derrubar, mas que segue em pé. E com muita gente querendo sustentá-la.

Dentro de Atocha, um enorme santuário, com centenas de velas, em homenagem a todos os mortos e feridos. Impressionante. Achei duas bandeiras do Brasil. Lembrei do Sérgio dos Santos Silva, a quem não tive a oportunidade de conhecer - mas pude falar com seus conhecidos e me sinto próxima a eles na dor. Chorei.

Além das velas - que aqui sempre aparecem protegidas por um tipo de copo vermelho - muitas cartas, poesias, flores. Ursinhos de pelúcia e mãos de crianças em cartazes - que marca dura para a vida! Obras de arte de toda sorte. Pichações nas paredes. Não importa. Os trabalhadores da estação e os policiais também são solidários nesta dor.

Subi as escadas, saí da estação. Na saída, ao redor de um pavilhão pequeno transparente, mais flores, escritos, laços negros de luto.

Bandeiras. O luto de Madrid é o luto dos equatorianos - aqui é a segunda cidade com mais equatorianos, só perde para Quito -, colombianos, peruanos, romenos, curdos, marroquinos, mexicanos, dominicanos. É um luto pela paz no mundo e pela paz na Espanha, contra o ETA, com os bascos, os catalães e todos os que querem se separar.

Recortes de jornais e fotos por todas partes. "No os olvidaremos", não lhes esqueceremos. "Descansen en paz, lucharemos por vosotros". Chorei de novo, por saber o quanto dói ter que informar e correr quando a vontade geral é sentar e chorar. Agora eu posso também.

Fui a Sol, o centro da cidade, tirar fotos. Outra homenagem. Agora, às milhares de pessoas, muito vivas, que ajudaram a salvar vidas prestando socorro de emergência, atendendo telefone, dando assistência psicológica e social, dando sangue, abrindo espaço, tendo paciência.

Dois dias depois do atentado, eu chorei pela primeira vez, de tristeza por tudo o que aconteceu. Agora eu entendo a dimensão da coisa. Espero que tenha podido explicar.

PS - Hoje já faço minha mala. Amanhã é só descansar, festa à noite (desde 3a, festa todos os dias) e avião de manhã. Espero que a greve na PF não atrase muito nosso encontro!



22.3.04


Nova dirección

Mudei de casa!!! Ainda bem que meu amigo Kiki me ajudou e trouxe as malas de carro. Se pra chegar em Madrid com 50 quilos já foi uma dificuldade, agora, com os cerca de... 80 que eu tinha, não seria capaz. Definitivamente...

Minha mudança custou meu trabalho, na festa dele no sábado: preparei 2 garrafas de cachaça de caipirinha, ou seja, deu umas 5 jarras, acho. E ainda ensinei a "bailar el samba." E depois o Samuel e o Carlos, meus novos companheiros de piso, me ajudaram com as malas...

Agora já estou provisoriamente instalada na minha nova casa. As coisas continuarão em malas até que eu volte do Brasil. Por falar nisso, anotem meu novo endereço:

Calle Alcantara 76 4o Izq
Madrid - España
28006
E agora eu tenho telefone fixo: +34 91 309 6289

Já estou com saudd daqui, mas como eu volto depois, nem vou sofrer. Afinal, estou com muuuuuuuuuuuuuuuuuito mais saudd daí.

Ah, em tempo: quem quiser me ver logo que eu chegue, combine com minha mãe, o Dani ou a Marina Gonzalez. Porque eu ouvi dizer que eles entrariam em contato entre si...

Depois me isolo uns dias antes de voltar à vida normal.

Um beijo



16.3.04


Comprado
Chego aí dia 27 de março, sábado. Às 15h45.
Uma longa história, mas não me sobram forças pra contar.
Tenho que trabalhar muito esses dias.
Amanhã sai outro texto meu no Estado.
Beijocas



14.3.04


PAZ, PEACE, PAIX

Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama,
porque el hombre de la paz era una fortaleza
Para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia,
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar mas para seguir matando,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza,
Para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa,
una armada, una hueste, una brigada,
tuvieron que creer que era otro ejercito,
pero el hombre de la paz era tan solo un pueblo
y tenia en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios mas tanques mas rencores
mas bombas mas aviones mas oprobios
porque el hombre de la paz era una fortaleza
Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse siempre a la muerte
matar y matar mas para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad,
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.

Mario Benedetti



13.3.04


Obrigada!
Bem que vocês podiam comentar o blog mais, como fizeram desta vez, hein?

Respondendo um pouco: a possibilidade de ser a Al Qaeda só começou a ser cogitada pelo povo aqui depois da declaração do Ministro de Interior, Angel Acebes, à noite no dia 11-M. Minha amiga fala que o mais provável é que tenha sido uma associação de Al Qaeda ($$) mais ETA (know-how Madrid e Espanha). Bom, é só uma hipótese leiga...

Vou contando as coisas aos poucos. Continuem comentando e me contando como vocês estão também. Estou morrendo de saudades. Ainda não troquei minha passagem pra ir pro Brasil porque pode ser que eu tenha que adiar em alguns dias a minha ida.

Aí abaixo vai a carta que eu escrevi pra minha igreja, conta um pouco do meu sentimento aqui e do sentimento geral. E fala da fé dos espanhóis também. Amanhã sai outro texto meu no Estadão. Beijocas...



Queridos irmãos e irmãs da Igreja Batista do Morumbi,

Escrevo para dar-lhes notícias de Madrid depois dos atentados. Achei importante não adiar mais para mandar este e-mail, que eu já queria ter escrito há muito tempo, mas pela correria acabava postergando. Em primeiro lugar, quero agradecer a todos que oraram por mim e por todos que moram aqui nestes dias e quero encorajá-los a continuar orando pela gente.

Foi um pouco chocante isso de viver o terrorismo em primeira pessoa, de me sentir uma possível vítima, ainda que nem eu nem nenhum dos meus amigos e conhecidos tenham sido atingidos. É um pouco parecido com o medo da violência que a gente tem no Brasil, mas a diferença é a proporção. Na quinta-feira, o barulho das ambulâncias o dia inteiro e o medo de alguma hora descobrir que algum conhecido tinha sido atingido. Na sexta-feira, a revolta, os rostos tristes nas ruas, a dúvida em relação ao que vem pela frente.

Falei também com a família do primeiro brasileiro identificado como ferido, o Adeildo Alves dos Santos ¿ estava trabalhando como jornalista, saiu matéria minha no Estadão, no Jornal do Terra e jornal semanal Visão Oeste ¿ e a situação dele é estável, mas ainda crítica. Peço orações especiais por ele, e por todos os familiares que perderam entes queridos e que ainda estão na expectativa de melhora.

Mas escrevo especialmente para pedir que nossa igreja ore pela Espanha em geral. Este país, que já foi muito católico, hoje parece bastante indiferente aos assuntos de Deus e nesse momento especialmente está muito carente da paz que só Jesus pode dar. Esta noite de sexta para sábado, estive na igreja em uma vigília de oração e Deus segue falando ao meu coração no sentido de passar uma mensagem de paz a este povo.

Os evangélicos aqui são muito menos numerosos proporcionalmente que no Brasil. Por exemplo, estou em uma das maiores igrejas batistas da capital e somos cerca de 20 jovens ativos, o que já é bastante para Madrid. E também as igrejas são bastante mais resistentes a mudanças e às adaptações aos novos tempos, por isso às vezes é difícil fazer alguns trabalhos que no Brasil já são pra lá de manjados, como evangelizar na rua, para dar um exemplo bem simples. Mas Deus tem levantado muitos jovens, adultos e idosos para viver uma nova cultura de igreja, contextualizada, que sabe dialogar com as pessoas de seu tempo e principalmente que põe Deus absolutamente acima de tradições e preconceitos.

Agradeço a Deus pela oportunidade de estar aqui, apesar do medo e da insegurança dos últimos dias. Peço que vocês orem por paz no mundo, pelos espanhóis e pela Espanha. Para que Deus dê sabedoria ao povo daqui neste domingo, quando vão votar para primeiro-ministro. Sinto-me privilegiada por ter a oportunidade de compartilhar as experiências que tive na nossa Igreja do Morumbi e de poder falar de Deus pra tanta gente de tantos cantos aqui.

Aproveito para encorajar vocês para orar por nós. Deus tem levantado muitas pessoas e trazido para a Espanha muitos imigrantes-missionários como eu, que vêem um propósito maior em sua vinda para este país que simples estudo ou trabalho. E também para encorajar todos os ministérios da nossa igreja aí para nunca duvidar do potencial revolucionário da Palavra do Senhor: se com muito menos gente aqui Deus já pode fazer maravilhas, imagina se todo mundo aí usa os dons e talentos que Ele nos deu! Uma maravilha!

No mais, muita saudade de todos, da minha amada família, do meu amado namorado, dos meus amigos mais chegados que irmãos, dos meus tios excelentes e de todas as pessoas queridas, isso sem falar na alegria e a festa do Brasil, as comidas mais gostosas de todas, as músicas que eu adoro, nosso grupo de jovens, nosso coral, nossas koinonias, coisas que a gente valoriza ainda mais quando está longe¿

Bom, mas nos veremos em breve, porque seguramente em abril eu estou aí.

Um beijão, que Deus os abençoe, oro por vocês daqui.
Lidia Gurgel Neves



11.3.04


Um dia para entrar para a história

Lembro-me muito bem de como foi o meu 11 de setembro de 2001. Um ano e meio depois, exatamente, outra data que vai entrar para a história.

Acordei cedo, para acertar meus documentos para ir pro Brasil. Como de costume, tomei meu banho e sentei na televisão para "mirar la tele", me informar um pouco, sabem, né? Quando eu vejo: atentado terrorista mata 30 em Madrid. Agora já são mais de 190 mortos e 1500 feridos, meu choque já aumentou bastante, já podem imaginar.

É horrível. As pessoas estão todas com cara de que perderam um ente querido. E muitas perderam, mesmo. As que não tinham ninguém conhecido envolvido nos atentados choram pela situação, a insegurança, enfim. Amanhã eu e todo mundo - todo mundo mesmo - vamos à manifestação contra o terrorismo.

Dá um pouco de medo de viver normalmente. Pegar o metrô é um pouco desesperador. Andei mais de ônibus do que nunca, hoje. As pessoas não dormiram a siesta hoje, foi o primeiro dia em que eu vi a rua cheia de gente das 14h às 17h.

Desde cedo, muita gente me ligou aqui e na minha casa no Brasil, me mandou e-mail, entrou no meu blog para saber como eu estava. Eu estou bem, um pouco sem acesso à internet, por isso não dei notícias antes. Mas minha supermãe, super eficiente, deu a entender que eu estava bem. Aliás, ela trabalhou muito hoje. Porque eu trabalhei muito também. Mamãe, desesperada, me ligou quando eu estava chegando no trabalho, de metrô. Como não conseguiu falar, ligou pro Carlos e lhe avisou do atentado, risos. O melhor foi o Dani, que só soube às 16h30 daqui. Me liga desesperado quando eu já estava cansada de estar bem...

Fiz matéria pro Estadão (leiam-me no Estadão de amanhã!) e entrei algumas vezes no Jornal do Terra. Tudo isso depois de trabalhar para a Cruz Roja pela manhã. Enfim, correria. Mas foi legal profissionalmente, apesar de eu não conseguir estar exatamente feliz.

Antes do atentado, desde o oooooutro domingo, eu estava um pouco com medo do que poderia acontecer. Aquele dia, o ETA ia tentar trazer 500 quilos de explosivos para explodir aqui. Eu nem falei sobre isso pra minha família não ficar muito preocupada, mas o fato é que eu estou evitando o máximo que eu posso as profundezas da linha 6 do metrô - aquela que é o inferno de quente e profundo, como eu disse uma vez.

Gente, vou dormir, estou cansada demais e amanhã tem mais. Entre as baixas, incluam que eu perdi hoje minha jaqueta da Cruz Roja, um livro da biblioteca da faculdade e um brinde da Knorr. Que raiva! Que idiotice!

Orem pelas pessoas aqui, está todo mundo desesperado. Precisando de ajuda. Espero que Deus nos ajude a todos. E nos proteja também.

Beijocas



Estou viva!

E trabalhando muito! Frilas e tal.
Depois eu conto, tá?
Obrigada pela solidariedade de todos.
Beijos



10.3.04


Já não...

Já não estarei tão preocupada em contar as novidades pelo blog
Já não vou ficar mandando milhões de mails e telefonemas
Já não vou ficar batendo papo no messenger

Tudo isso porque já não...
Falta muito para eu ir pro Brasil.

Consegui acertar a vida para ir antes, por isso podem me esperar a partir do dia 24 de março. Sim, ainda este mês. Não comprei minha passagem até agora, mas vou fazer isso em breve.

Agora, é correr para dar conta das coisas aqui!!!

E KK, se quiser, pode adiantar o chá de cozinha que eu tô voltando... (hihi, a música mais rádio USP que existe!!!)

Esta sexta vou dar um testemunho na igreja... Orem por mim.

Uma beijoca



4.3.04


De volta à vida. E ao blog

Oi, amigos, tudo bem?

Ia escrever antes, mas como era carnaval aí e ninguém ia ler, mesmo, adiei a tarefa.
O fim-de-semana pós carnaval era também meu primeiro finde de verdade neste ano, então aproveitei para sair, dançar, dançar e dançar. Foi ótimo!!!

Mas na verdade, também foi um pouco difícil, porque minha residência começou a fechar... Naquela semana, a Guni (a senhora que nos aluga os quartos na escola) disse que teríamos que sair até o dia 1o de abril. A Serina já se buscou a vida e mudou no sábado. Sexta saímos para bailar e comemorar nossa amizade bonita! Eeee!!! Fomos as 5: eu, Aneke, Serina, Elionora e Teresa. Uma beleza. Dançamos muita música latina e muito funk... No dia seguinte, mais festa, com os amigos do Master, porque foi o aniversário da Shadi. De novo, uma beleza.

Aí essa semana foi de continuar nas mudanças. A Aneke voltou hoje pra Alemanha. Agora restamos só eu, Teresa e Eli. Que triste!!! Estava um pouco deprê na semana passada, com tantas mudanças, e também porque não queria ter que procurar casa de novo. Já tinha mais ou menos combinado de dividir o quarto com a Ana, mas tudo estava dando errado.

Felizmente, agora o Samuel (o pastor, pai do Carlos...) já confirmou que a gente pode mesmo ir para casa dele. Moraremos lá, e ainda terei telefone e internet em casa. Comunicação muito melhor com o Brasil, hein???

Fora isso, não tenho muitas novidades. Sigo na Cruz Roja, meio capenga mas estou lá. Ah, sim!!! Estou tendo aulas de cooperação internacional, excelentes, sei muito mais hoje do que ontem. E esse finde tem feijuca no bar onde a Bia (Beatrice) do master trabalha, ella disse que devem me dar a feijoada grátis só porque eu sei ¿bailar el samba¿.

Beijocas e vê se vcs comentam, porque só eu conto de mim e não sei o que vcs andam fazendo por aí!!!