Da capitá federá
Ou de onde quer que eu esteja

28.7.05


Vozes da Democracia

É com alegria que comunico que o livro Vozes da Democracia, escrito por diversos integrantes do Intervozes e do qual eu participei, foi aprovado para publicação, ontem, pelo Comitê Editorial da Imprensa Social, com copyleft.

Este foi o parecer do Silvio Barone, da Ashoka, que deu o parecer final sobre o livro:

Foi um privilégio para mim, defender o trabalho de vocês. Sem dúvidas, a democracia inexiste sem a comunicação livre principalmente em um período tão complicado quanto a decada de 70. Além disso, não tínhamos nenhum registro histórico sobre esse tema, o que legitima ainda mais este projeto.
(...)
Parabéns a todos.



Nostalgia

Hoje fui pela última vez, provavelmente, à universidade. Já pedi o diploma (que fica pronto em um ano e eu receberei no Brasil), peguei minhas notas e minha tese. Tirei fotos, enfim, me despedi.

Vou sentir saudades. Mas a vontade de voltar pro Brasil e, antes, de viajar pela Europa é tão grande que meio que apaga o resto.

A Laura volta pro Brasil amanhã. Com 32 kg de livros meus. Um horror... Minha mãe não sabe o que fazer com tantas coisas. Nesses dois anos fora, minhas irmãs ocuparam MEUS espaços que ficaram vazios...

Medo medo medo medo medo.

Vale lembrar que nostalgia, em espanhol, significa mais ou menos o mesmo que saudade em português. Mais ou menos, né?



19.7.05


Querido diário: (ou melhor, queridos amigos:)

Faz tempo que eu não passo por aqui simplesmente para dar notícias. Bastante tempo...

É que a vida tem estado bastante corrida. Muitas visitas - semana passada os pais e a irmã da Ju (que mora comigo) estavam lá em casa. A Shadi já foi embora e estávamos procurando alguém pra colocar no lugar dela (problema já solucionado). E antes de eles irem embora, a Ana, que morava comigo no ano passado e agora adotou Londres como endereço, chegou para uma visita. A Laura continua por aqui. Eventualmente, toda essa gente, mais o Kiki (aquele meu amigo espanhol que é amigo da Tati Lotierzo), a Carol (que mora comigo), eu e o Dani nos reunimos para fazer algo.

Isso significa várias baladas, jantares, cinemas ao ar livre, cervejinhas, vinhozinhos, caipirinhas. Tudo bem gelado para refrescar um pouco o calor de 40 graus que anda nos matando... Mas ainda prefiro o calor que o frio, e o digo apesar do risco de me arrepender, motivado pelos 42 graus registrados alguma vez em algum relógio ao sol. E à noite parece que o calor piora. Até refrescar um pouco já são 3 da manhã!

Continuo fazendo estágio na ATEI, até a metade de agosto. Depois, eu e o Dani já estamos organizando uma viagem bem legal pelas Zoropa. Vamos pra uma pá de lugares, como dizem os paulistas (meu sotaque já tá uma coisa tão esquisita que eu já falo dos paulistas em terceira pessoa...). E vamos visitar vários amigos, o que me deixa especialmente animada.

Sei que ainda devo muitas histórias de Paris. E cada vez mais acho que não darei conta de contar todas. Mas a cidade é simplesmente maravilhosa. Fiquei apaixonada e com vontade de passar um tempo por lá. Creio que Londres e Berlim produzirão um sentimento parecido em mim. Os jardins de Paris são uma graça, no verão ficam cheios de gente tomando sol, fazendo pic nic, brincando, tomando sorvete, etc. A cidade tem monumentos em tudo quanto é lado, uma coisa impressionante.

Mas o ar parisino tem uma certa petulância real, que não se vê em Madri. Por exemplo, sentamos num restaurante pra jantar. Antes de pôr o segundo prato, o garçom deu a maior bronca do mundo porque os talheres não estavam onde tinham que estar! E sempre tratando os rapazes de "monsieur". Meio chato, tipo aulas de etiqueta em forma de bronca para quem não as solicitou. Isso sim é que é falta de educação!

Agora, em compensação, fora a demora e as broncas, pudemos ver o que é comer à francesa. Na maioria dos lugares, nos trataram super bem. Nos restaurantes, sempre com um copinho de água de ótima qualidade acompanhando! Aliás, a água de Paris tem um gosto excelente, não sei explicar. Falo da de torneira, mesmo. Bom, a Evian também é boa, melhor ainda.

Tenho que pôr mais fotos... Do "Marais", por exemplo, ou "Marré" da música "eu sou pobre, pobre, pobre / de Marais, Marais Marais/ eu sou pobre, pobre, pobre/ de Marais desci!"...

Enfim, já voltei a falar um pouco de Paris e não era essa a idéia. A idéia é contar coisas de Paris acompanhadas de fotos. Afinal, foi também para isso que eu tirei 280 fotos. Tentarei ser mais fiel e vir com mais freqüência, querido diário e prezados leitores.

Além do que eu já contei, depois de ter o Dani à minha inteira disposição para ajudar no que fosse necessário no mês de maio e de um mês de descanso de estudos em junho, agora é minha vez de ajudá-lo com sua tese/trabalho final. Queremos terminá-la antes das nossas merecidas férias de dois anos de muitos esforços braçais e intelectuais.

Ah! Já saiu a nota da minha tese. 8,5 , "Notable". Tendo em vista que era uma análise de linguagem e escrita em espanhol, fiquei satisfeita com a nota. Mas se fosse em português, quereria mais. Mais que nada, estou satisfeita com o que eu aprendi. Agora é só tramitar o título, viajar um montão e partir pro abraço no Brasil!!!

Chego em Sampa em outubro, acho que ainda não tinha comunicado isso oficialmente. Em um princípio para ficar. Queridos amigos e leitores jornalistas: se quiserem já começar a procurar um emprego pra gente, a gente aceita de bom coração! :-)

Estou já com o meu coração no Brasil. Mas tenho evitado ficar totalmente bem-informada para não me deprimir. No Brasil, bizarrices da corrupção. Na Europa, bizarrices do terrorismo. Não tem jeito... Mas ainda bem que os amigos e a família continuam lindos e queridos, apesar da conjuntura.

Fui, porque tenho que trabalhar, apesar de que o chefe está de férias e os outros chefes não estão - a sala da "diretoria" (haha) está vazia porque estão trocando o piso. Adiosito, queridos, até a próxima!



11.7.05


Vale a pena ver

1) Esse depoimento do Tony Meléndez. Um exemplo de fé e de boa vontade para mudar as coisas.

2) Esses depoimentos na manifestação contra a censura no Jornal do Commercio.

Na descrição de Marcelo Arruda, "se trata do link com imagens do ato realizado em Recife referente a demissão do jornalista e editor executivo do Jornal do Commercio Cícero Belmar. Motivo? Autorizou a publicação de uma reportagem referente a libertação de trabalhadores submetidos a condições análogas à de escravos na Destilaria
Gameleira, no município de Confresa, em Mato Grosso.

A destilaria pertence ao empresário pernambucano Eduardo Queiroz Monteiro, também proprietário do jornal Folha de Pernambuco. A notícia, contrária aos interesses de Monteiro, foi considerada como uma campanha para denegrir as suas empresas e seu jornal. Segundo Belmar, para que não hovesse abalos na amizade entre Monteiro e João Carlos Paes Mendonça, dono do JC, algo teve que ser feito..."

3) Qualquer filme ao ar livre. Este sábado vimos Los Padres de Él (não sei como seria em português). Engraçadinha!



Histórias sem noção

Vou contar rapidinho, antes que seja tarde.

A primeira:

Cenário: Dani e Lidia num restaurante beeem sujinho em Paris.

Bêbado: je suis blá blá blá (em francês)

Dani: (silêncio)

Bêbado (sempre em francês): Vocês falam francês? Espanhol? Inglês?

Dani, com a cabeça: Não, não, não (contexto: tínhamos combinado que só falaríamos em português para diminuir a possibilidade de conversar com chatos. E abriríamos a exceção para pessoas simpáticas).

Bêbado: Que idioma vocês falam?

Dani: Português.

Bêbado (em português, com sotaque paulistano): Sério? Que legal! Eu sou brasileiro!

O cara nasceu em Paris mas morou 20 anos no Brasil, na infancia e adolescencia. O que parecia um nível de bebedeira bem elevado depois se transformou num nível de bebedeira conhecido de muitos somado à falta de uma das pernas, que o fazia cambalear.

Ele ama o Brasil, mas não pisa no país desde a sua juventude, há uns 30 anos... E ainda disse que o pai dele foi o primeiro dono do Peg e Pag. Foi a primeira pessoa que nós conhecemos em Paris. Nos ajudou bastante a matar a fome inicial, quando meus seis meses de francês ainda estavam tímidos, no fundo da minha consciência.

A segunda:

Exatamente uma semana depois da anterior.

Cenário: Evi e Fulvio (primos da Carol), Carol, Lana (chefe da mesma), Lidia, Dani e Shadi na mesa da casa das meninas. Comendo macarronada italiana feita pelo italiano. Um calor insano. Todas as janelas abertas e papo animado.

De repente, entra um vulto voador pela janela. O resto da história eu reconto, porque não vi. A pré-adolescência em Sorocaba me deixou com um medo indescritível de que um morcego enrosque no meu cabelo e, ante a impossibilidade de buscar comida em outras partes, resolva morder meu pescoço. Na faculdade, uma entrevista sobre raiva em morcegos se soma à experiencia anterior.

Meu subconsciente e o estudo profundo de jornalismo de guerra no passado recente me levaram imediatamente para debaixo da mesa, antes de que o animal pudesse pousar no varal de casa.

Depois de muitos gritos (sendo o meu o principal), os presentes à mesa puderam atestar que o animal deveria ser um papagaio. Papagaio? Sim, isso mesmo. Verde, como os brasileiros. Loro! Loro! Dani se pôs a assobiar, para que ele se sentisse mais à vontade. Com tanta gente, o bichinho se assustou e voltou pela janela que tinha entrado.

Só aí as pessoas foram perceber que eu estava debaixo da mesa. Levanta, Lidia! Água com açúcar. Risadas, muitas. Internet: descrição sobre o papagaio: vôo pesado. É, parece que era um papagaio mesmo! Claro que era, dizem os presentes.

Fecha a janela. Nunca mais dormi de janela aberta. Acho que nunca mais dormirei de janela aberta. Tenho medo de papagaio... hahahaha!



8.7.05


Todos e todas

Já estou com a mente e o coração no Brasil. E pensando cada vez mais sobre o que acontece no aqui em que eu não estou, mas ao qual pertenço. Infinitamente. Indubitavelmente.

Ainda não sento nos bares com os brasileiros no Brasil, porque apesar de já ter ido em parte, ainda não cheguei.

Mas tenho pensado sobre o que ele e ela andam dizendo. O diálogo segue por e-mail, e já não é diálogo. Debatemos todos e todas, todas e todos.

Tenho muita dificuldade em falar em feminino e masculino. Gosto da idéia de um plural neutro. Mas o neutro é masculino. E impor o masculino sobre o feminino não é só questão de linguagem, por isso se começou a falar assim, todos e todas, ou todas e todos - porque também daqui a pouco se questionará por que o homem vem antes. Tem gente que põe o plural neutro com arroba. Tod@s. Me soa a neutro.

Tenho acompanhado, ouvido, aprendido. Ainda faltam passos importantes para que os homens e mulheres, as mulheres e homens, se entendam e respeitem completamente.

Me alegro de que mulheres e homens estejam aprendendo a dialogar, a trocar, a recolocar-se em sua relação. Mais no Brasil que na Espanha, onde muitas mulheres continuam sendo maltratadas e assassinadas. O diálogo dos meus amigos brasileiros tem muito o que ensinar a esta triste realidade espanhola.




7.7.05


Uma constatação
Todos os dias que tem atentado eu acordo angustiada, mesmo sem saber das notícias. Ainda bem que a recíproca não é verdadeira, mesmo que eu não acorde angustiada muitas vezes. Será que se eu banir a angústia param os atentados?

Meios e terrorismo
Hoje entrevistei uma vítima do 11-M que disse que não vê mais TV porque só fala de terrorismo. Se sair a matéria eu mando o link!

Localização
Como só falo de Paris, tem gente achando que eu estou por lá. Não, pessoal, estou em Madri.
E preparem-se, porque acabando minha estadia aqui, este blog terá que mudar de nome. Pode ser Lidia na Europa por um mês. Depois, terá que ser algo mais standard, ou mais criativo, para que continuem lendo minhas tortas linhas mesmo estando no Brasil.

Fui!



Terrorismo

Desde que terminei minha tese, não escrevi nada sobre isso aqui. E lamento que tenha sido apressada pelas circunstâncias.
Quando Paris, Londres e Madrid ficaram como finalistas para sede das Olimpíadas, temi por isso.
São três cidades muito visadas pela Al Qaeda. Ainda não se confirmou que eles foram os autores, mas alguns indícios.
- O momento em que o fizeram. Não poderia ser "melhor" para um grupo tão preocupado com sua publicidade: Grã Bretanha é a presidente da União Européia, Londres é futura cidade olímpica.
- Os atentados simultâneos, em vários lugares ao mesmo tempo.
- O horário (de noticiários), propício para as informações entrarem ao vivo nos canais de televisão.

É lamentável que um grupo opte por este tipo de atuação, matando pessoas inocentes, independentemente de suas motivações ou das causas estruturais que possam levar as pessoas a aderir a este tipo de ações. Inevitável lembrar a dor que vi ao vivo em Madrid. Inevitável voltar a sentir a dor que senti naquele momento.

Que acabe já o terrorismo! Que o mundo se mobilize para uma política de paz, segurança e oportunidades para todos!



3.7.05


Paris 2: monumental

Porque não requer muitas explicações...



Mas antes o hotel, que vocês estão esperando há taaanto tempo! Em esquema acampamento, cabem quatro pessoas nessa cama. Eu estou em diagonal. Mas o quarto era bem chique, o mais caro da minha vida, olhando para o passado e acho que para o futuro também. Risos.




Palácio de Versailles, sala dos espelhos, onde assinaram o Tratado de Versailles. Fiquei emocionada.




Museu D´Orsay. Impressionismo predomina, mas também tem Rodin e outras coisas interessantes.




Obelisco. Não podia acreditar que estava vendo-o...




Arco do Triunfo!!!




Monumento à República.




Praça da Bastilha!!!




Panteão



Sacre Coeur. No alto do morro. Linda. A vista, idem.
A seguir mais fotos e histórias...



2.7.05


Paris: o dia em que não fomos

Queridos amigos,
Finalmente começo a contar a tão esperada viagem a Paris... Tentei publicar um dia desses, mas demorei muito escrevendo e... perdi tudo! Droga! Aí vai...



Tudo começou com um vôo que atrasava e atrasava, apesar da promessa de pontualidade da Ibéria. Depois de cinco horas de espera, sendo uma de aeroporto fechado por causa das chuvas - e olha que nunca chove em Madri... -, vôo cancelado.

A galera se revoltou (especialmente os que estavam em conexão):
- Queremos vuelo a Paris! Queremos vuelo a Paris!



A Ibéria, provando ser uma empresa latina, cedeu às pressões. Ia dar prioridade aos que estavam em trânsito por aqui, para não ter que pagar hotel pra galera. Mesmo assim resolvemos esperar. A mulher que estava dois lugares mais à frente na fila, de Madri, conseguiu embarcar. O homem atrás dela, em conexão, não. Enfim, criam regras para não cumpri-las.



Nos levaram para o Hotel Meliá em Madri. Cinco estrelas... O Dani conseguiu mudar a reserva do hotel (que tinham nos dado) pro dia seguinte... Beleza... Pensamos em ir trabalhar na sexta e faltar na terça, mas esse mega café da manhã fez a gente mudar de idéia.



Resolvemos compensar tudo depois e fomos dar uma volta por Madri. Lugares ainda desconhecidos para nós. Demos uma volta de teleférico na Casa de Campo, o "pulmão" desta cidade em que vivo.



Também fomos ao Palácio Real. Antes de ir ao Palácio de Versailles: vai que perde a graça?
Chegamos ao hotel para almoçar antes de viajar (26 horas depois do previsto), mas já tinha acabado o almoço. O garçom nos ofereceu levar uma comida fria no quarto. Aceitamos, pensando um sanduíche. Veio um almoço bem decente, mas não tiramos fotos por causa da pressa...

Finalmente, na noite do dia 24 estávamos em Paris. Num hotel animal, como disse abaixo. A seguir cenas do próximo capítulo...

PS - Laura Naime, ex-ecana ilustre, já está em Madrid, aqui em casa hoje. Depois vai pra uma residência, fazer um curso de verão. Bjs